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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Salve Jorge chega mesclando pontos positivos e negativos

E foi dada a largada. 

Estreou na noite de segunda, 21 de outubro, Salve Jorge, a nova novela do horário nobre da Rede Globo. Com a assinatura de Glória Perez, responsável por sucessos como Explode Coração, Barriga de Aluguel, O Clone e também por América, a segunda maior audiência do horário das 21hrs na década de 2000, a trama tem como protagonistas Nanda Costa e Rodrigo Lombardi e pretende discutir assuntos como o tráfico internacional de mulheres, além de ter parte de sua história ambientada na Turquia.

Não há como negar que o tema central é interessante. Conhecida por sempre trazer a tona temas aparentemente polêmicas, Glória acertou na escolha. Contudo, há que se deixar claro que de nada vale uma boa ideia sem uma boa execução. A expectativa que o primeiro capítulo deixou quanto a esse núcleo foi boa. Mesmo aparecendo apenas no final, conseguiu chamar atenção, especialmente na rápida aparição de Cláudia Raia como Lívia, a grande vilã da trama e Totia Meirelles como Wanda, seu braço direito. Duas atrizes já consagradas, junto com Giovanna Antoneli, foram os destaques positivos, junto com a belíssima abertura, embalada por Seu Jorge. 

Começar a história com um flashforward, 8 meses no futuro, foi uma sacada interessante e serviu pra despertar um maior interesse na história: Como Morena (Nanda Costa) foi parar na Turquia? As pessoas que a estavam leiloando tem ligação com a quadrilha de Lívia e Wanda? E Théo (Rodrigo Lombardi), onde entra nessa história? Se o que Glória Perez queria era aguçar a curiosidade, ela conseguiu. Resta saber quanto tempo de novela teremos até chegar àquele ponto. Uns 5 meses? Seria, talvez, o adequado. Arrastar o "mistério" até o fim pode ser um tiro no pé. Por agora, o que resta mesmo é esperar.

Quanto a fotografia, não há muito o que comentar. As imagens da Turquia  que abrem a novela são belíssimas - e nem tinham como não ser, assim como Caminho das Índias e O Clone. Um dos problemas, talvez, seja essa semelhança. Já tem gente classificando as três novelas como uma trilogia, o que, em uma análise superficial, não chega a ser absurdo. Antônio Calloni parece repetir o personagem de O Clone, teremos provavelmente um novo bordão e personagens com nomes exóticos, além das vestimentas já características. 

O roteiro também foi um dos pontos fracos dessa estreia. Abusando do didatismo, citando o São Jorge que dá título a novela, de cinco em cinco minutos, ele perdeu a oportunidade de delinear melhor as tramas que vão nos acompanhar pelos próximos 7 meses. Alguns personagens, como Helô (Antonelli) ficaram perdidos, presos numa linha tênua entre comédia e drama, sem deixar ao menos subentendida sua linha narrativa. A tão esperada reconstrução da pacificação no Complexo do Alemão incomodou pelo excesso de cenas já usadas em telejornais e que nada disseram, apenas pareciam estar ali por estar.

Apesar da personalidade forte de Morena, o que ficou evidenciado mesmo nesse primeiro capítulo é que o "Calcanhar de Aquiles" da história foi mesmo a escalação de Nanda Costa, que ainda não tem a maturidade suficiente para segurar um papel de protagonista de novela das 21hrs. Diferente de Deborah Secco e Juliana Paes, que começaram bombardeadas e depois viraram o jogo com público e crítica, o caso de Nanda é mais grave. Sem qualquer tipo de expressão facial, a atriz simplesmente expeliu o texto pela boca e, na tentativa de esconder a falta de emoção, usou-se de gritos e movimentos bruscos com o corpo, que incomodaram. Ainda não é possível dizer se ela terá ou não química com o Théo de Rodrigo Lombardi, mas uma coisa é certa: Se não melhorar logo, Morena provavelmente será ofuscada.

É impossível julgar uma obra por seu primeiro capítulo, mas, se aparar bem estas arestas, talvez Salve Jorge conquiste sua dignidade e seu espaço com o público. O potencial para ser um forte e típico folhetim existe, só precisa ser usado.

Com uma média de 36 pontos, e considerando-se o baixo share, o calor e o começo do horário de verão, é possível dizer que a nova novela de Glória Perez teve uma boa estreia em termos de audiência.  

     

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Porque eu amei o final de Avenida Brasil


Lá pras bandas do capítulo 150, quando Carminha consegue as fotos e conta a Tufão que Nina é Rita, o jogador decide tirar a história a limpo com a cozinheira. E no tão esperado acerto de contas, Tufão questiona Nina sobre seu desejo doentio de vingança e ela, inerte, sólida e firme, responde aquilo que prega desde quando foi jogada no lixão: “Não é vingança, Tufão. É justiça.”

Nina obteve sua justiça. A custo, a muito custo. Se enveredou em caminhos por muitos considerados obscuros, usou de tramoias, artimanhas, jogou sujo, se converteu em uma pessoa como Carminha, mas sem nunca perder seus valores primordiais, aquilo que aprendeu na sua criação.

Carminha e Nina vieram do mesmo material: Lixão.

Algoz e vítima, criador e criatura, reflexo e espelho. Uma não existia sem a outra, uma dependia diretamente da outra, pro bem ou pro mal, não cabe analisar a natureza de tal ligação. Nina via em Carminha alguém torta, quebrada e perversa, mas que, no fim das contas, se mostrou apenas uma versão distorcida da garotinha que um dia abandonou no lixão. A diferença é que Nina teve sorte e Carminha não. Foi criada por uma família maravilhosa que lhe ajudou a suprir a ausência que o pai lhe fazia.

É chover no molhado falar da desconstrução que João Emanuel Carneiro impôs aos esquemáticos papéis de mocinha e vilã, mas é essencial citar isso pra que se possa entender a construção narrativa irretocável da novela. No fim das contas, nem Nina e nem Carminha eram vilãs e mocinhas convencionais. Cada qual tinha seu papel designado, mas andavam na linha tênue entre o que ousou se configurar como certo ou errado, bem ou mal.

Quando Carminha escolhe atirar contra o pai e salva Nina e Tufão, a saga da cozinheira estava completa. Tudo que elas viveram na mansão, quando Nina a chantageava, as levou àquele momento. Nina pregava para Lucinda: O que eu quero é torná-la uma pessoa melhor. Fazê-la entender. Não vingança. JUSTIÇA. E Nina fez. Carminha demorou, mas entendeu. Seu pedido para que Nina disparasse a arma foi sincero. Seu discurso pra Tufão sobre amor e suas distorcidas formas foi sincero.  Carminha, ali, já tinha entendido.

De certa forma, talvez ela tenha visto em Nina aquilo que ela poderia ter se tornado caso a vida a tivesse levado para rumos diferentes. A conversa das duas no lixão, quando Carminha já aceitou seu destino e chance de recomeçar, resume perfeitamente a história das duas. Carmen Lucia nunca foi uma vilã convencional. Por que seu final havia de ser? Fugir do país com um marido rico? Morrer? Passar a vida atrás das grandes? Que nada. Mainstream demais pra João Emanuel Carneiro.

E, aqui, é o momento de bater palmas pra esse homem que, em 179 capítulos, construiu uma narrativa irretocável. Uma história coerente, com começo, meio e fim e eu desafio qualquer um que não tenha achado isso a me apontar UMA falha no enredo. Mas falhas, falhas. Buracos, coisas que não fizeram sentido. Não pen drives, lentidão em algum momento, bancos ou qualquer coisa do tipo. Tudo isso são escolhas criativas que, calcadas na verossimilhança (e não realidade) que a novela precisa transmitir, funcionaram.  (E não me venham aqui dizer que o filho da Suelen não aparecer é um erro, porque me digam em que isso faria alguma diferença pra trama?)

Eu digo sem medo nenhum: Avenida Brasil é mais do que o maior fenômeno de repercussão dos últimos anos, é a clara representação do que é teledramaturgia e a melhor e mais bem construída novela que eu já tive o prazer de assistir.

E, se amanhã, eu encontrasse João Emanuel Carneiro na rua, eu lhe daria um abraço, um beijo e diria: É DIVINOOOOOOOO! Pra terminar, só uma amostra do roteiro, ou um monólogo e o que faz Avenida Brasil ser simplesmente... Avenida Brasil.

“Da minha maneira maluca, eu te amei. Eu gostava de ser a esposa perfeita, gostava de ter uma família, gostava de te fazer feliz… Porque você me fazia feliz, como eu nunca eu nunca tinha sido antes, como nunca mais eu vou ser! Obrigada, viu? Eu só tenho mais um pedido a te fazer: cuida da Ágata por mim."
  

sábado, 13 de outubro de 2012

Avenida Brasil e a mudança no padrão

Que Avenida Brasil é a novela de maior repercussão no país desde - pelo menos - Celebridade, parece que não há o que discordar. A trama de João Emanuel Carneiro, que deve fechar com média geral de 39 pontos no IBOPE (tecnicamente empatada com sua antecessora, Fina Estampa), veio com tudo em sua reta final e vem atingindo índices bem mais altos que as 02 últimas novelas do horário na mesma altura. O capítulo de segunda, dia 08/10, onde Carminha foi escorraçada da mansão por Tufão atingiu impressionantes 49 pontos, a maior audiência de uma novela desde o capítulo final de Passione.  

O que eu quero discutir nesse texto, contudo, não tem nada a ver com o desempenho de Avenida Brasil em números. Muito, mas muito mais importante do que isso diz respeito ao que João Emanuel Carneiro e equipe fizeram em - até agora - 173 capítulos com relação ao modo de se contar, construir e levar ao ar uma novela. Costumo dizer que Avenida veio como um rolo compressor. Expulsando pra longe o fantasma de suas antecessoras, a trama de Nina e Carminha tornou-se o centro das atenções, o objeto de estudo de alguns acadêmicos, o tema de rodas de discussões entre amigos, a novela que parou o país, como há muito não acontecia. Em linguagem técnica? Um fenômeno.

Escrever sobre ela pode parecer fácil, mas não é. Qualquer coisa que se diga vai parecer pequena e não existem adjetivos suficientes para elogiar a construção narrativa que JEC escolheu usar. Renegando o clássico maniqueísmo folhetinesco, fórmula barata e rápida para o sucesso, ele nos trouxe uma mocinha com ares de vilã, uma vilã cujo passado ainda desconhecido pode ser a chave de tudo, o mais complexo mocinho dos últimos anos, isso pra começar. O que temos, em um olhar geral, é uma galeria de personagens tridimensionais, todos com bem e mal dentro de si e agindo e se moldando a medida que a trama avançava. Nem santos, nem demônios. Humanos. Que erram, acertam. E erram de novo.

A história da menina abandonada no lixão que voltou anos depois jurando vingança daria para preencher umas 03 novelas. É bem verdade que em certo ponto a trama pode ter pisado no freio para respirar durante alguns capítulos, mas quem disse que isso é demérito? Avenida Brasil nunca deixou de andar, em momento nenhum subestimou seu telespectador (e não, a falta de um pen drive não foi um erro, apenas uma escolha de roteiro que, sustentada na composição impulsiva de Nina, transmitiu a verossimilhança necessária) e possui não uma, não duas, mas cinco, seis cenas que entram facilmente para os anais da teledramaturgia brasileira.

Direção e fotografia dignas de cinemas - e, talvez por isso, confusas à grande parte do público - deram o tom sombrio e soturno que a maior parte da história pedia, mas não decepcionaram também nos núcleos cômicos, tão bem criados e delineados pelo roteiro que foi, talvez, o mais bem escrito por João Emanuel até agora. Diferentemente de suas outras 03 novelas, nada aqui estava fora do lugar. TODOS os núcleos funcionaram bem, encontraram seu lugar e conseguiram conquistar.

E como não falar do elenco? Ah, o elenco. Há quem critique o roteiro, a direção, os rumos ou qualquer outra coisa, mas criticar o elenco de Avenida Brasil é mais que absurdo, é imoral e criminoso. Adriana Esteves, Murilo Benício e Débora Falabella dispensam quaisquer elogios. Tentar usar alguma palavra para classificar o trabalho dos 03 é um pecado. Não existe ainda no dicionário. Para Marcelo Novaes, a glória. Max é o papel que ele esperou sua vida inteira. E fez valer. Está apenas o farelo. Mas ainda entregue. José de Abreu, Vera Holtz... A lista é extensa. Vale citar até a doce Mel Maia, que encantou o país nos 06 primeiros capítulos.

A 6 capítulos do fim, muita coisa ainda pode acontecer. Algo que manche o que esses outros 173 fizeram? Duvido. A teledramaturgia brasileira já pode ser dividida em antes e depois de João Emanuel Carneiro, o mais jovem autor do horário nobre e o responsável por mudar o padrão. Ninguém mais vai aceitar qualquer coisa agora.  E o mais sensato a se fazer após o dia 19/10 é fechar o horário. E não tem Jorge que nos salve.        

domingo, 21 de agosto de 2011

Insensato Coração: A paciência foi uma virtude


Foi preciso paciência, muita paciência com Insensato Coração. A trama das 21hrs assinada por Gilberto Braga e Ricardo Linhares começou morna, quase fria e se distanciando um pouco do formato que vinha sendo usado no horário, contando uma história de maneira mais lenta e mantendo – inicialmente – poucos personagens no núcleo central. Tal mudança, a princípio, soou estranha e o resultado foi o estranhamento inicial do público e da crítica.

A maneira que Braga e Linhares escolheram para contar o “prólogo” de sua história não chamou atenção. Tudo isso só viria a fazer sentido quando mais ou menos 1/3 dos capítulos já tinham sido exibidos e, em uma virada de mesa, todos os núcleos se interligaram e a novela ganhou agilidade e, consequentemente, audiência. Um dos recursos que contribuíram para tal mudança de ritmo, mas que também não foi bem recebido por uma parcela do público, foi a maneira quase serializada de tratar alguns personagens, que entraram na novela com um número determinado de capítulos e saíram após cumprir sua missão. Lavinia Vlasak, Ana Beatriz Nogueira, Ricardo Pereira, Cristiana Oliveira e Fernanda Paes Leme são exemplos.

Tal mudança no modo de se começar a trama, contudo, também tem seus méritos e a excelente construção feita de Norma (Glória Pires), a verdadeira protagonista da história, é seu maior deles. Ela, que começou como uma auxiliar de enfermagem bobinha, foi alterando sua personalidade pouco a pouco e sua relação com Léo alcançou a maestria. O confronto direto entre os dois – com a vingança dela – demorou a acontecer, mas quando veio, veio com força total e nos deu cenas sensacionais e seguiu uma narratividade quase irretocável. Norma e Léo foram os donos da novela e responsáveis pelos seus grandes momentos.

Gabriel Braga Nunes não deixou a desejar e construiu seu Léo em nuances, com olhares pérfidos, trejeitos únicos e uma personalidade forte. Ao lado de Norma, foi o personagem mais completo da novela e, com ela, forma, sem dúvida, uma das melhores histórias dos últimos anos da televisão. O recorte dado a tramas sociais, como a homofobia, também foi outro ponto positivo e que merece destaque.

Coadjuvantes como Raul (Antônio Fagundes), Carol (Camila Pitanga), Natalie (Deborah Secco), Eunice (Deborah Evelyn), Tia Neném (Ana Lúcia Torre), Beto (Petrônio Gontijo), entre outros, também seguraram muito bem as tramas que lhe foram dadas. Em contrapartida, o casal principal, Pedro e Marina, não empolgou em nenhum momento e a maior culpa disso se encontra na muito mal desenvolvida história de amor entre os dois e na falta de química. Eriberto Leão foi pobre de atuação durante toda a história e sua inexpressividade esteve ainda mais presente, enquanto Paola Oliveira deu o máximo de si em uma personagem que ficou apagada durante quase todo o tempo e conseguindo poucas oportunidades de brilhar.

O uso do já batido recurso “quem matou” (presente em outras obras que trazem o nome de Braga, como Vale Tudo, Força de Um Desejo, Celebridade e Paraíso Tropical) foi jogado apenas para a semana final da história e isso foi outro acerto, já que perder Norma ou Léo antes disso poderia causar uma quebra brusca no ritmo da trama e comprometer a qualidade. Todo o último capítulo e a resolução do crime seguiram a mesma linha dos últimos meses da novela e não decepcionaram, estando no tom correto e fazendo total sentido. 

Insensato Coração sai de cena com uma média geral de audiência acima de Passione e Viver a Vida e, em qualidade, foi superior também a Caminho das Índias, sendo a melhor obra das 21hrs desde A Favorita. Resta a Fina Estampa manter – ou até mesmo elevar – os números e qualidade. Estamos todos torcendo para isso.